Uma expressão desvirtuada para lacrar
COMEÇAR O ANO COM O PÉ DIREITO
Todo começo de ano traz consigo a necessidade simbólica de renovação. Promessas, planos, metas e desejos se acumulam na virada do calendário. Nesse contexto, a expressão “começar o ano com o pé direito” volta a circular com força e, curiosamente, tem sido alvo de disputas e ironias que nada têm a ver com sua origem ou seu real significado.
A expressão “começar com o pé direito” é muito mais antiga do que qualquer debate político contemporâneo. Sua raiz está na Roma Antiga, onde predominava a superstição de que o lado direito representava bons presságios, sorte e proteção divina. Entrar em um ambiente com o pé direito, iniciar uma jornada por esse lado ou dar o primeiro passo com ele era sinal de augúrio positivo. O lado esquerdo, ao contrário, era associado ao azar; não por acaso, a própria palavra “sinistro” vem dessa tradição cultural.
Portanto, falar em “pé direito” nunca teve qualquer relação com ideologias, partidos ou posições políticas. Trata-se apenas de um símbolo cultural de bom começo, prosperidade e expectativa positiva.
Já a associação da ideia de “direita” e “esquerda” à política tem uma origem bem diferente. Ela surge no Parlamento Francês, durante a Revolução Francesa, quando os grupos se posicionavam fisicamente no plenário: à direita do presidente sentavam-se os defensores da monarquia e da ordem tradicional; à esquerda, os que defendiam mudanças estruturais e maior igualdade social.
Foi uma convenção espacial que acabou se transformando em classificação ideológica, só isso.
Misturar esses dois mundos, o simbólico-cultural e o político, é um exemplo claro de como a polarização tem contaminado até mesmo a linguagem cotidiana. O problema não está no uso da ironia ou da crítica, mas na tentativa permanente de transformar tudo em disputa, rótulo ou sinalização de pertencimento a um campo político.
Essa polarização excessiva tem feito um mal profundo ao país. Enquanto discutimos símbolos, palavras e provocações vazias, deixamos de concentrar energia no que realmente importa: metas para melhorar a economia, ampliar oportunidades, promover desenvolvimento humano e, em última instância, melhorar a vida das pessoas. Nenhuma nação prospera quando está permanentemente em guerra consigo mesma.
É evidente que os políticos e o poder público têm responsabilidades centrais nesse processo. Mas não são os únicos. Uma sociedade saudável depende de civismo político, da capacidade de discordar sem destruir, de debater sem ofender e de conviver sem transformar o outro em inimigo. Discussão serena, crítica racional e respeito são pilares indispensáveis para a vida em sociedade.
Por isso, qualquer pessoa pode, e deve, usar a expressão “começar o ano com o pé direito” sem medo de contaminar sua opção política, sem precisar se explicar e, muito menos, brigar com amigos ou familiares. Palavras não devem ser cárceres ideológicos. Quando passam a ser, algo está muito errado.
A idolatria política, venha de onde vier, não é saudável. Ela empobrece o debate, adoece relações e nos afasta daquilo que realmente importa: construir um país melhor para todos. Talvez o verdadeiro “pé direito” que o Brasil precise seja justamente este, ou seja, mais lucidez, menos rótulos e mais humanidade no convívio coletivo.
