O Tempo do Sentido: Aprender na Era da Explicação
Escrevo este texto inspirada pela leitura de A Crise da Narração, de Byung-Chul Han — um livro breve e perturbador, desses que continuam ressoando muito depois da última página. Han observa que vivemos um tempo que tudo explica, mas pouco compreende. Um tempo em que a informação substituiu a narrativa e, com isso, perdemos o espaço da experiência. Explicamos para encerrar, não para compreender.
Essa constatação ecoa com força na educação. Nas salas de aula digitais, tudo é rápido, mensurável, compartilhável. Professores e alunos vivem sob a pressão de estar sempre atualizados — como se o conhecimento fosse um feed sem fim. O resultado é a exaustão: acumulamos dados, mas não os transformamos em sabedoria. Vivemos muito, aprendemos pouco.
O que Han chama de “crise da narração” é também uma crise do pensamento crítico. Quando tudo é imediato, falta o tempo necessário para pensar — para compreender o contexto, o tempo e os poderes que moldam as informações que consumimos. O pensamento crítico exige pausa, silêncio e escuta. Exige a coragem de duvidar e de resistir à facilidade das respostas prontas. É nesse intervalo entre o saber e o não saber que o aprendizado acontece.
O psicólogo David Ausubel, há décadas, já alertava para o risco da aprendizagem mecânica: o acúmulo de informações desconectadas da experiência, que se apagam tão rápido quanto surgem. Em contraste, a aprendizagem significativa ocorre quando o novo se ancora em estruturas prévias de sentido — quando o conhecimento é tecido, não empilhado. Essa ancoragem simbólica e afetiva é o que transforma informação em sabedoria.
Paulo Freire também via o ensino como um ato narrativo: contar o mundo ao outro de modo que ele possa habitá-lo com consciência. Ensinar, dizia, não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua construção. Nessa perspectiva, o professor é um narrador do sentido, alguém que ajuda o estudante a conectar o vivido e o pensado, o individual e o coletivo, o presente e a história.
Mas como narrar num tempo em que as máquinas parecem saber tudo? Talvez a resposta esteja justamente aí. Se deixarmos à Inteligência Artificial as tarefas mecânicas — buscar, corrigir, organizar —, talvez possamos recuperar o que nos torna essencialmente humanos: o diálogo, a escuta, o tempo do encontro. A IA pode ser a ferramenta que nos devolve o tempo da presença — por mais paradoxal que isso pareça.
Essa esperança, no entanto, exige uma mudança de postura: deixar que a máquina cuide dos dados, enquanto nós cuidamos do sentido. A educação, nesse contexto, não é o lugar da velocidade, mas o espaço onde se preserva a experiência. É o espaço onde ainda é possível narrar, duvidar, interpretar. Onde o professor ajuda o aluno a ver o que não está dito, a ler o mundo por entre as linhas.
Afinal, aprender é atribuir sentido: uma forma de ancorar sabedoria em meio ao ruído.
Enquanto houver professores dispostos a narrar e alunos dispostos a escutar, a experiência seguirá viva.
E talvez, como diria Han, ainda haja esperança — silenciosa, humana e teimosa — nas sombras da reflexão.
Referências:
AUSUBEL, David P. Educational Psychology: A Cognitive View. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1968.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
HAN, Byung-Chul. A Crise da Narração. Petrópolis: Vozes, 2024.
