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Patriotas e Soberanos

Patriotas e Soberanos

O Brasil descobriu, com certo atraso, que já não basta ser brasileiro. É preciso escolher que tipo de brasileiro se pretende ser.

De um lado estão os Patriotas. Do outro, os Soberanos.

Não procure essas duas agremiações na Justiça Eleitoral. Elas não existem. Ou, talvez, existam demais.

O Patriota veste verde e amarelo com a solenidade de quem acabou de reconquistar o território nacional. A bandeira não é mais um símbolo: é quase uma certidão de bons antecedentes. Ele fala em família, liberdade, propriedade, Deus, ordem e tradição. Desconfia do Estado, da imprensa, dos tribunais, dos professores e, dependendo da hora do dia, do vizinho.

O Soberano prefere outro vocabulário. Fala em povo, democracia, justiça social, Estado forte, indústria nacional e independência diante das grandes potências. Para ele, o Brasil precisa voltar a mandar no próprio nariz. E, se possível, produzir o nariz aqui mesmo, com tecnologia brasileira e financiamento público.

O curioso é que ambos juram colocar o Brasil em primeiro lugar.

É uma coincidência extraordinária.

O Patriota acredita que precisa salvar o Brasil dos Soberanos. O Soberano acredita que precisa salvar o Brasil dos Patriotas. E o Brasil, coitado, permanece no meio da sala enquanto os dois discutem quem o ama mais.

Toda paixão política, quando exagerada, tem alguma coisa de casamento em crise. Já não basta amar o próprio lado. É indispensável odiar o outro.

E assim chegamos à grande invenção nacional dos últimos anos: o brasileiro que só consegue provar que ama o país demonstrando desprezo por metade de seus compatriotas.

A política deixou de ser apenas uma discussão sobre impostos, segurança, emprego, saúde ou tamanho do Estado. Isso seria simples demais. Passou a ser uma disputa sobre caráter.

Meu candidato não está apenas certo. Ele é moralmente superior.

O seu não está apenas errado. Ele é uma ameaça à civilização.

Eis a polarização em toda a sua glória.

A camisa da Seleção, que já serviu para sofrer com pênaltis e discutir escalação, ganhou ideologia. A palavra “democracia” ganhou dono. A liberdade ganhou dono. O povo ganhou dono. Até o Brasil ganhou dono.

Naturalmente, cada proprietário considera o outro um invasor.

O Patriota olha para o Soberano e pergunta: “Como alguém que pensa assim pode amar o Brasil?”

O Soberano olha para o Patriota e pergunta exatamente a mesma coisa.

Nenhum dos dois percebe a ironia.

Há ainda uma terceira personagem nessa tragicomédia: a rede social.

Nunca o brasileiro teve tanta oportunidade de encontrar pessoas que concordam integralmente com ele e tanta raiva de descobrir que existem pessoas que não concordam.

O algoritmo entendeu rapidamente uma fraqueza humana muito antiga: nós gostamos de estar certos, mas gostamos ainda mais de assistir ao outro lado sendo humilhado.

Por isso, a ponderação fracassa.

Ninguém compartilha um cidadão dizendo: “Talvez o outro lado tenha alguma razão.”

Isso não rende comentário.

Agora experimente escrever que metade do país é composta por fascistas ou comunistas.

Sucesso instantâneo.

A indignação virou entretenimento. A política virou torcida organizada. E todo torcedor sabe que o juiz é ladrão quando marca contra o seu time.

Talvez o mais divertido — se não fosse trágico — seja perceber que Patriotas e Soberanos defendem conceitos que não são necessariamente inimigos.

Patriotismo é amor à pátria.

Soberania é o direito dessa pátria de decidir seu próprio destino.

Um país perfeitamente saudável poderia desejar as duas coisas.

Mas nós conseguimos transformar até sinônimos afetivos em adversários eleitorais.

Esse talvez seja um talento genuinamente nacional.

O Brasil sempre foi contraditório. Conservador e progressista. Religioso e secular. Capitalista e estatista. Agrícola e industrial. Rico e miserável. Moderno e arcaico.

Somos um país que discute o futuro enquanto tropeça no passado.

E talvez por isso essa guerra entre Patriotas e Soberanos seja tão brasileira.

Cada lado está convencido de representar o Brasil inteiro.

Nenhum percebe que representa apenas uma parte.

A democracia nunca prometeu que viveríamos cercados de pessoas que pensam como nós. Prometeu justamente o contrário: que teríamos de conviver com elas.

E essa talvez seja a parte mais insuportável.

Porque derrotar um adversário numa eleição é fácil.

Difícil é encontrá-lo no elevador no dia seguinte e admitir que ele continua sendo brasileiro.

No fim, Patriotas e Soberanos podem passar décadas discutindo quem coloca o Brasil em primeiro lugar.

Mas há uma pergunta mais incômoda.

De que adianta colocar o Brasil em primeiro lugar se, antes disso, precisamos expulsar metade dos brasileiros de dentro dele?

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